Escritos Vários

Repositório de artigos vários, publicados ou inéditos, de Mário Rodrigues

quinta-feira, agosto 18, 2005

Sócrates, "espanhol"?

No dia seguinte às eleições de 20 de Fevereiro passado, o diário de Montreal, "La Presse", noticiava a vitória de Sócrates, designado-o como «le chef du Parti socialiste espagnol»...

Não sendo raro no estrangeiro pensarem ser Portugal uma província espanhola, o mais óbvio seria tomarmos por um mero lapso a afirmação do jornal canadiano.

Mas, volvidos apenas quatro meses sobre o início da socrática (des)governação, estamos mais habilitados a concluir que em lugar de um ignaro equívoco se tratou de uma premonição ou de uma esclarecida previsão feita por um jornalista estrangeiro que estando distanciado da poeirenta política portuguesa com mais clareza perscrutou a realidade futura.

De resto, considerando muitos antecedentes, inspirados nos tempos do pantanal gueterriano, não era particularmente difícil perspectivar o mais próximo porvir. Pois, não fôra Sócrates a Madrid, em gesto de prenunciante vassalagem preitear homenagem ao Presidente do Governo espanhol, José Luís Zapatero, antes do acto eleitoral, em público cerimonial iniciático de adestramento ao cargo a que se candidatava? Era bem de ver o que se prognosticava, sem carecermos de imaginar caluniosamente outros apoios que não os estritamente morais..., nem fantasiarmos nada mais do que um singelo tutelar arrimo de um irmão mais autorizado ao necessitoso e submisso confrade...

Depois foi o que se viu..., foi o que era de esperar... Não nos ensina o nosso sábio povo que quanto mais nos baixamos mais se nos vê o... que... suposto era estar bem coberto, mormente nos homens de bem?...

Logo de início, para Ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros escolheu um devotado militante do antiamericanismo primário e do europeísmo mais destilado: duas opções de vida e de política externa que bem somadas redundam na deletéria orientação de anulação internacional de Portugal com o seu corolário consequencial de integração na Grande Ibéria pela qual o biógrafo de Afonso Henriques parece nutrir uma desvelada afeição...

O panorama ficou ainda mais intimamente hispanófilo quando o novo Primeiro-Ministro decide empreender a sua primeira visita oficial ao estrangeiro exactamente a Espanha, agradecendo a Zapatero o fraternal apoio pré-eleitoral e retribuindo ao Governo espanhol – que sem diplomáticas moderações festejou o presidencial derrube de Santana Lopes –, com a tão grandiloquente quanto aleivosa proclamação estampada garrafalmente no "El País" de que as prioridades de Sócrates em vez de serem singelamente PORTUGAL seriam, nem mais nem menos..., "ESPANHA, ESPANHA, ESPANHA"...

Depois disto, o que se tem visto é uma ruinosa acção (des)governativa que vai afundando a ritmo apressado o nosso País, quando, aqui bem ao lado, a Espanha continua a crescer e a prosperar, deixando de ser um dos parentes pobres da Europa para se converter numa das suas mais prósperas potências.

Ao arrepio de tudo quanto falsamente prometera em campanha eleitoral, sobe estrondosamente o IVA e o ISP, agravando as condições da falta de competitividade económica das nossas empresas face às espanholas que paulatinamente vão dando as mortais estocadas nas congéneres portuguesas. Os resultados são evidentes: centenas de empresas portuguesas já se mudaram para Espanha por razões de vantagem fiscal e quase todo o Portugal interior passou a fazer compras em Espanha com prejuízo gravíssimo para os produtores e distribuidores nacionais.

Se toda a socrática política económica e financeira se começa a manifestar ruinosa, no específico sector energético a realidade atinge o mais despudorado escândalo. E por trás dele, está tão simplesmente alguém que o falecido Sousa Franco epitetava de "o homem dos espanhóis": o inenarrável Pina Moura, que nem sequer tem a menor preocupação em esconder "ao que anda"... No melhor estilo "mensaleiro", acumula as funções de deputado e de administrador da espanhola Iberdrola em Portugal, tudo como se ao menos no domínio da ética não existissem incompatibilidades. Vá lá que não sendo constitucionalmente possível, não é cumulativamente ministro. Mas a política governamental para o sector é exactamente a sua, o mesmo é dizer a da Iberdrola..., política que o Director de Estratégia e Desenvolvimento desta empresa, José Luis del Valle, elogiava ainda antes das eleições, quando em Madrid, em acto público... deu o seu apoio ao programa eleitoral do PS ao mesmo tempo que criticava a política do Governo do PSD que parece não ter sido tão favorável aos interesses espanhóis...

Perante tamanhas obscenidades, é quase irrelevante denunciar a placidez com que Sócrates transigiu com as autoridades espanholas quando estas deixaram de cumprir os convénios sobre os rios comuns... e parece insignificante que ele tenha autorizado os municípios espanhóis da Extremadura a abastecerem-se na albufeira do Alqueva ao mesmo tempo que os agricultores portugueses são severamente punidos se se atreverem a regar com as águas da barragem...

A falta de brio patriótico, a irreprimível tentação de colocar os interesses partidários acima dos assuntos de Estado e a incontrolável obsessão em manipular e mentir em lugar de governar, levaram-no, antes de partir para umas "merecidas" férias após "três árduos meses"... de trabalho, a consorciar-se com a espanhola Prisa para que, por via do PSOE, ele e os seus passem a controlar a Média Capital. Se não é tolerável ver um Primeiro-Ministro a patrocinar uma negociata privada, o que pensar e dizer quando, a troco de interesses sectários e grupais, se promove a venda a espanhóis de uma importante empresa portuguesa? E ainda vem aí nova fase de privatizações que os espanhóis gulosamente aguardam...

Depois de tudo isto, só nos faltam os ruinosos projectos da OTA e especialmente do TGV. Serão, juntamente com as SCUT's, a machadada final nas finanças públicas portuguesas das próximas décadas e o colapso final do País. Madrid sabe-o tão bem que se esmerou em conceber uma tão interminável quanto letal rede de linhas para cobrir todo o nosso minúsculo rectângulo. Também para Espanha o retorno financeiro do seu projecto é mais do que duvidoso. Mas vale bem o estrago que terá nas suas sólidas contas nacionais. Será um preço bastante aceitável pelo aniquilamento de Portugal e pela finalmente alcançada unidade da Grande Ibéria...

Agora que regressou, finalmente..., do seu safari africano em tempo de falências, desemprego e de muita miséria, talvez fosse chegada a hora de Sócrates repensar a sua curta mas já suficientemente desastrada e danosa (des)governação, redefinindo as prioridades: em vez de Espanha, Portugal; em lugar dos rapazes do seu partido, todos os Portugueses!...

Publicado no jornal O Diabo, de 23/8/2005