Dois factos incontornáveis marcarão, na história da Questão de Olivença, o ano findo de 2004: o debate parlamentar de 25 de Junho e a publicação de “La Cuestión de Olivenza”1, de Carlos Rodríguez Fernández Liesa.
Ainda que suscitada por uma Petição, a que a lei conferiu força de discussão obrigatória em Plenário da Assembleia da República, pela primeira vez em muitas décadas os diversos grupos parlamentares puderam expor as suas posições sobre a matéria, tendo por unanimidade aprovado a convocação do titular da pasta dos Negócios Estrangeiros ao hemiciclo para que apresente de modo oficial a posição do Estado português sobre este litígio territorial.
Ao encerrar-se o ano, Carlos Fernández Liesa, Professor Titular de Direito Internacional Público da Universidade Carlos III, de Madrid, deu à estampa o primeiro estudo jurídico profundo que se publicou sobre a Questão de Olivença. É, sem dúvida, longa a lista de obras redigidas sobre o litígio oliventino, desde Estácio da Veiga em 1863 a Carlos Luna e Luis Limpo Píriz nos nossos dias2. Mas quase todos esses trabalhos ou têm natureza historiográfica, ou são memórias pessoais combinadas com relatos históricos, ou descrições de viagem ou meros libelos de cariz político. Mesmo as obras redigidas por juristas limitavam-se a enunciados genéricos de princípios jurídicos integrados numa descrição histórica do problema3. Apesar de evidenciar uma estreita e forçada acomodação às teses espanholas a ponto de correr o risco de ser visto mais como um parecer jurídico do que como uma análise independente e cientificamente conduzida da disputa territorial que opõe Portugal e Espanha, o recente livro de Carlos Fernández Liesa apresenta-se como uma novidade que comporta alguns méritos. Desde logo, é um espanhol o seu autor. Longe vão os tempos em que só em Portugal e especificamente em Olivença, se discutia e se estudava a Questão. Nos últimos anos o debate e a investigação passaram também a ser feitos em Espanha e por espanhóis sem ligações familiares ou afectivas a Olivença4. É, também, de realçar que é a primeira vez que um especialista em Direito Internacional Público se debruça sobre o problema. E fá-lo de um modo extenso e aprofundado, ao logo de quase quinhentas páginas, recorrendo para o efeito não apenas a uma metodologia jurídica aplicável à factualidade já apurada, mas efectuando pesquisa histórica documental sobre fontes primárias depositadas em arquivos de Portugal, Espanha e França5, sem descurar a vasta lista de estudos já editados, sejam eles obras de vulto ou singelos artigos insertos em publicações periódicas. De resto, tanto a especificidade deste ramo do Direito como a passagem de duas centúrias sobre o polémico Tratado de Badajoz de 1801, não permitiriam outra abordagem que não fosse a combinação da metodologia jurídica com as técnicas de investigação historiográfica. O estudo de Carlos Fernández Liesa tem, ainda, o mérito de estruturar as grandes linhas de argumentação de Portugal e Espanha relativamente a Olivença, de apontar as principais fontes doutrinárias aplicáveis aos diversos pontos em conflito e de elencar a jurisprudência conhecida para casos similares. Aguarda-se uma resposta à altura, de um especialista português em Direito Internacional Público.
Apesar do destaque que merece, “La Cuestión de Olivenza” não foi o único livro que viu a luz da imprensa neste úbere 2004 em matéria editorial. Este ano ficará na memória cultural oliventina como um dos mais profícuos, atendendo tanto à quantidade como à qualidade das obras publicadas.
Estampou-se o quarto número da revista Encuentros6, que se edita em Olivença, e que teve por tema a «América y la Reclamación Portuguesa de Olivenza». Ao longo de mais de quatrocentas páginas, encontramos diversos artigos sobre a Questão de Olivença7, as disputas territoriais surgidas entre Portugal e Espanha nos inícios do século XIX ou sobre a polémica diplomática que envolve actualmente a reconstrução da Ponte de N.ª Sr.ª da Ajuda que até à Guerra da Sucessão ligou as duas margens do Guadiana.
No campo da história militar, lançaram-se duas primorosas obras, respectivamente pela editora Prefácio e pela Tribuna da História8.
A primeira, “A Guerra das Laranjas”, da autoria de António Ventura, trata deste episódio bélico que conduziu à perda de Olivença, dos antecedentes deste conflito e dos seus preparativos, dos ataques contra as praças de Olivença, Elvas e Juromenha, bem como de outras operações militares como os Combates de Arronches e de Flor da Rosa e o Cerco de Campo Maior. Finaliza com um circunstanciado estudo dos tratados de Badajoz e de Madrid de 1801.
A segunda, “Olivença – 1801 – Portugal em Guerra do Guadiana ao Paraguai”, da autoria de Manuel Amaral, versa sensivelmente os mesmos temas da obra de António Ventura. Mas, como o subtítulo do livro indicia, alarga o âmbito espacial de abordagem às diversas campanhas militares da época travadas em solo português, incluindo o Norte, a Beira e o Algarve, a que acresce o estudo das operações navais efectuadas pela marinha portuguesa no Atlântico e no Mediterrâneo ocidental, bem como as acções bélicas lusas realizadas na América do Sul.
No campo da onomástica, Antonio María Castaño Fernández publicou “Nombres de Frontera: Estudio Toponimico de Olivenza y Taliga”9. A tauromaquia mereceu o extenso estudo de José Mauricio Rodríguez del Rincón, “Olivenza y los Toros: Historias de un Pueblo y de su Plaza”10. E, para terminar, Carlos Consiglieri, deu-nos, ainda, uma saborosíssima obra: “A Doçaria Portuguesa de Olivença”11. Embora o tema essencial do livro se enquadre num âmbito gastronómico, versando especialmente sobre os doces e licores oliventinos inseridos na tradição geral alentejana, boa parte do estudo ocupa-se da história de Olivença e do seu património cultural, incluindo a arquitectura popular.
Pelos numerosos trabalhos historiográficos publicados12, pela relevância não meramente jurídica da edição de um estudo espanhol de Direito Internacional Público, mas ainda pelo debate parlamentar realizado, bem como pelos atritos diplomáticos que continua a causar o processo de reconstrução da Ponte de N.ª Sr.ª da Ajuda, para quem a julgasse esquecida, o ano de 2004 veio mostrar, inquestionavelmente, que a “velha” Questão de Olivença continua viva e actual...
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1 Carlos Rodríguez Fernández Liesa, La Cuestión de Olivenza, Valência, Tirant lo Blanch, 2005. Apesar de o frontispício da obra ter grafado o ano de 2005, o depósito legal tem o ano de 2004, o livro foi impresso em 2004 e posto à venda nesta data.
2 Sebastião Filipe Martins Estácio da Veiga, Gibraltar e Olivença. Apontamentos para a História da Usurpação destas duas Praças, Lisboa, Typographia da Nação, 1863; Gustavo de Matos Sequeira e Rocha Junior, Olivença, Lisboa, Portugalia Editora, 1924; Queirós Veloso, Como Perdemos Olivença, 1.ª ed., Lisboa, Casa Ventura Abrantes, 1933; José de Gambôa de Abranches Jordão, Olivença: dissertação apresentada ao concurso para terceiros secretários de legação e cônsules de terceira classe do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Lisboa, 1938; Ventura Ledesma Abrantes, O Património da Sereníssima Casa de Bragança em Olivença, Lisboa, Edição de Álvaro Pinto (Revista Ocidente), 1954; Ricardo Rosa y Alberty, O Problema de Olivença (Desfazendo Equívocos), Lisboa, Amigos de Olivença, 1969; idem, A Questão de Olivença (Por quê Olivença não pertence à Espanha), Lisboa, 1960; Carlos Eduardo da Cruz Luna, Nos Caminhos de Olivença, 1.ª ed., Estremoz, 1994; idem, «A Questão de Olivença: Uma Visão Portuguesa», in O Pelourinho. Boletín de Relaciones Transfronterizas, Badajoz, Ayuntamiento de Badajoz – Diputación Provincial de Badajoz, n.º 9, Abril de 1999, pp. 25-29; Luis Alfonso Limpo Píriz, Olivenza, entre España y Portugal, Olivença, Ayuntamiento, 1989; idem, «Gibraltar y Olivenza. Dos Litigios Fronterizos en la Península Ibérica», in Encontros/Encuentros. Revista Hispano-Portuguesa de Investigadores en Ciencias Humanas y Sociales, Olivença, Ayuntamiento, n.º 2, 1993, pp. 235-256; idem, «Olivenza, una Espina Clavada en el Flanco sur de Badajoz», in Apuntes para la Historia de la Ciudad de Badajoz. Ponencias y Comunicaciones, Badajoz, Editora Regional de Extremadura, 1999, pp. 139-149.
3 Flório José de Oliveira, Breve Comentário à Sempre Viva e Actual Questão de Olivença, Lisboa, Estudos Pórtico, 1948; António Manuel Pereira, Olivença, Terra portuguesa. Como a Obtivemos e como a Perdemos, 1.ª ed., Porto, Rotary Club, 1960.
4 É de destacar o facto de no ano anterior, também em livro, um diplomata espanhol, Máximo Cajal, ter dado grande destaque à Questão de Olivença, suscitando mesmo alguma polémica ao quebrar o longo silêncio que em Espanha se fazia sobre o assunto e ao sugerir o quadro de uma solução para o litígio (Máximo Cajal, Ceuta, Melilla, Olivenza y Gibraltar. Dónde acaba España?, Madrid, Siglo XXI de España Editores, 2003).
5 Em Portugal, a Torre do Tombo; em Olivença, o Archivo Histórico Municipal; em Espanha, o Archivo Histórico Nacional, o Archivo del Ministerio de Asuntos Exteriores e o Archivo del Consejo de Estado; e em França, os Archives du Quai d'Orsay. Boa parte da documentação existente no Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros foi publicada em 2001 com o apoio do Instituto Diplomático e do Fundo de Relações Internacionais (Luiz Teixeira de Sampayo, Compilação de Elementos para o Estudo da Questão de Olivença, Lisboa, Associação dos Amigos do Arquivo Histórico-Diplomático do Ministério dos Negócios Estrangeiros – Grupo dos Amigos de Olivença, 2001.
6 Encontros/Encuentros. Revista Hispano-Portuguesa de Investigadores en Ciencias Humanas y Sociales, Olivença, Ayuntamiento, n.º 4, 2004.
7 Entre os artigos publicados conta-se uma síntese do estudo de Carlos Rodríguez Fernández Liesa, com o título “La cuestión de Olivenza a la luz del Derecho Internccional Público”, do qual já em 2005 o Ayuntamiento de Olivenza editou uma separata, para ampla divulgação a baixo preço.
8 António Ventura, Guerra das Laranjas. A Perda de Olivença. 1796-1801, Lisboa, Prefácio, 2004; Manuel Amaral, Olivença. 1801. Portugal em Guerra do Guadiana ao Paraguai, Lisboa, Tribuna da História, 2004.
9 Antonio María Castaño Fernández, Nombres de Frontera: Estudio Toponimico de Olivenza y Taliga, Badajoz, Diputación de Badajoz, 2004. Do mesmo autor, veja-se Los Nombres de Extremadura: Estudios de Toponimia Extremeña, Badajoz, Editora Regional de Extremadura, 2004.
10 José Mauricio Rodríguez del Rincón, Olivenza y los Toros: Historias de un Pueblo y de su Plaza, Olivenza, Ayuntamiento, 2004.
11 Carlos Consiglieri, A Doçaria Portuguesa de Olivença, Sintra, Colares Editora, 2004. Do mesmo autor, veja-se Olivença: Reflexões sobre Usurpação e Aculturação, Lisboa, Editores Garrido, 2001.
12 Refira-se, ainda, a publicação, em 2004, de uma reprodução facsimilada de Olivença, de Matos Sequeira e Rocha Junior, e da segunda edição da Historia de Olivenza, de Gregorio Torres Gallego.
Publicado na revista História, Maio de 2005, Ano XXVI (III.ª Série), n.º 76, pp. 72-74.